Últimos Homens e Anjos Vazios
P.S: Negligencia-se muito facilmente hoje em dia que os seres humanos são média primários - os aparelhos apenas se juntam às qualidades mediáticas dos seres humanos enqaunto amplificadores. Enquanto média, os homens são sempre mensageiros - portanto, homens entre os homens, intermediários. Eles informam outros homens daquilo sobre o qual foram informados. Estas transmissões ou serviços estafetas contêm todo o processo da humanidade. É a razão pela qual os homens são todos potenciais mensageiros, do grego angeloi, anjos informadores do estado das coisas - mas dizer qaulquer coisa deste tipo é um acto proscrito da teoria dominante dos média que se lançou numa celebração demencial das imagens e dos aparelhos. Os unicos que aplicam o termo «medium» ao ser humano são, infelizmente, os ocultistas - o que, na verdade, é um escândalo teórico. Em todo o lado que se fala de média fala-se dos aparelhos e dos programas. Isto ilustra um desenvolvimento problemático e é um índice de coisificação em grande escala. Resumindo, se a palavra «devastador» se revelasse um dia como certa seria sobretudo porque estes fenómenos de desencanto são realmente ameaçadores. As pessoas que são massivamnete privadas das suas qualidades de mediadoras - justamente por meio dos chamados média - desenvolvem as caracteristicas do »último homen» no mau sentido do termo. Vivemos em nós uma grande morte dos anjos - as últimas pessoas são anjos vazios, não-mensageiros, homens mudos. Entende-me bem, não falo aqui do «último homem» do prólogo de Zarathustra, aquele que tem o seu pequeno prazer pelo dia, o seu pequeno prazer pela noite e que inventou a felicidade. (…)
Peter Sloderdijk, Ensaio sobre a intoxicação involuntária, um diálogo com Carlos Oliveira
